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ENTREVISTA
CONCEDIDA POR LUIZ IZIDORO A JOÃOZITO
J.
- Que sentido tem para você sair da sua casa para diversas
cidades como Salvador, Vitória, São Paulo, para
falar de homens como Nietzsche, Foucault, Guattari, Deleuze?
Falar de cinema, de arte?
L.I. - Digamos que o meu trabalho com a filosofia é uma
experiência fora dos modelos institucionais, acadêmicos
e também da história da filosofia. Eu não
sou propriamente um historiador da filosofia, ainda que de uma
certa maneira o seja. Trabalho sobre as obras da filosofia,
sobre as obras que a filosofia produziu, mas não como
a história da filosofia nos ensinou. O meu trabalho se
aproxima do que diz Godard de seus filmes, que eles não
têm necessariamente início, meio e fim, pelo menos
nessa ordem, que as coisas podem ser colocadas de outra maneira.
Acredito que a filosofia interessa, tem importância, apenas
quando nos permite fazer encontros com outros homens, outras
mulheres, com animais, vegetais. Fazer do pensamento não
um processo intelectual, mas um processo de vida, de intensificação
de vida. Não sei se respondi bem à pergunta que
você me fez, mas é o que posso dizer.
J. - O que justifica a presença de pensadores tão
ilustres como Foucault, Guattari, Deleuze? O que esses homens
trazem de novo?
L.I. - Diria que é questão de simpatia, de arrebatamento.
Para os que freqüentam o meu curso, é muito evidente
a influência das vozes de Foucault, de Nietzsche, de Deleuze
sobre o meu pensamento. Eles fazem com que as vozes do pensamento
clássico, Platão, Aristóteles, Kant, Hegel,
também passem no meu trabalho. Ainda que, realmente,
o encontro tenha sido com os primeiros. Foram eles que me levaram
para a filosofia.
Acredito que o que você me pergunta é: o que nessas
obras fascina, atrai, arrebata? Penso que é o fato desses
pensadores terem feito da filosofia alguma coisa completamente
diferente do que é a história da filosofia, do
que foi o trajeto da filosofia no ocidente. Eles inventaram
maneiras de pensar que fogem das noções de culpa,
de falta, o desejo como ausência de vida. Quando nos encontramos
com Deleuze, com Nietzsche, com Foucault, o que encontramos
na realidade são vidas muito intensas e plenas, que fizeram
os seus encontros com outros pensadores, com a literatura, com
o cinema. Quem não se fascina com o cinema, com a literatura,
com a produção da arte moderna? No momento em
que se abriu para esses encontros, a filosofia foi arrastada
por esses fluxos, abandonou todas as suas posições
autoritárias, dogmáticas, seu ar de distância
para com os homens e a vida.
J. - Isto seria a pop-filosofia?
L.I. - Acredito que Deleuze foi muito feliz quando disse que
a sua filosofia, ou melhor, que a maneira de alguns pensadores
contemporâneos fazer filosofia é pop. Porque eles
se relacionam com o pensamento, com a arte, com as ruas, da
mesma maneira que a pop-arte nos anos 60 nos ensinou a fazer.
Torcem, distorcem, intensificam as coisas, fazem tudo ganhar
cores, vibrações, intensidades novas.
J. - Falando das artes plásticas, a pop-arte fala
de uma banalização do erudito, de uma erudição
do banal, de repetição, de relações
de massificação, toca nas questões do Estado
e nas relações econômicas. De certa forma,
tudo isso está relacionado com esta filosofia?
L.I. - Nossa vida nada mais é do que relações.
Vivemos todo o tempo nelas. As sociedades modernas do século
XX inventaram novas relações no amor, novas experimentações
com a droga, com a música, com o cinema e, já
que o mundo se tornou pop, a filosofia não poderia permanecer
arcaica. A filosofia produziu uma nova maneira de pensar, de
colocar os problemas quando se encontrou com as multidões,
as tribos que estão nas ruas, nas cidades. E este encontro
não é recente, começou em Atenas, no meio
do burburinho das cidades, dos fluxos mercantis, de mulheres,
de dinheiro, de palavras. A filosofia é filha da cidade,
portanto, tem que ser moderna, mas não banalmente, a
qualquer custo. Nietzsche nos ensinou que enfrentar aquilo que
em nossa época é banal, é tolo é
uma maneira de sermos modernos, mas é em nossa época
que precisamos encontrar as armas para enfrentar a nossa banalidade,
a que nos atravessa em todos os momentos da nossa vida. A filosofia
aparece então como uma experiência que qualquer
homem pode fazer.
J. - Vivemos hoje a morte de Deus. Esta morte traz o luto
de Deus. Por que vemos tantos cursos de "filosofia"
que buscam preencher este vazio da morte de Deus, que remetem
a outros deuses, deuses orientais, deuses do capitalismo? Como
você vê este velório de Deus?
L.I. - Falar da morte de Deus não é uma questão
fácil, simples, não há uma única
versão. Nietzsche nos ensinou a pensá-la de forma
muito humorística. Ele nos dá pelo menos 14 versões
para esse acontecimento, que, como qualquer outro, é
múltiplo, tem muitos sentidos. É curioso falar
isto a respeito de Deus, que é um princípio único
de identidade. Como diz Nietzsche, os deuses antigos, pagãos,
morreram de rir quando souberam que havia um único Deus.
J.
- Seu curso tem uma postura nômade. Você fala de
cibernética, de populações primitivas,
de Platão, de Foucault, das mais diversas relações
e forças, de multiplicidade, de caos. Isto é uma
aversão aos sedentarismos, uma postura nômade?
L.I. - A história do Ocidente é de perseguição
aos nômades. Podemos entender o nomadismo como uma deriva,
uma fuga. Os nômades sempre fugiram do Estado, do déspota,
do homem da lei, portanto, podemos definir as sociedades nômades
como sociedades de fuga. Nesta fuga eles tiveram que inventar
uma arma para enfrentar o inimigo que queria fixá-los,
paralizá-los, fazer passar as relações
nômades para o modelo do Estado, sedentário. Em
filosofia não é diferente. Encontramos pensadores
do Estado, que têm afinidade com os modelos de Estado
e pensadores que sentem aversão, antipatia por tudo isso,
que só sabem pensar em termos de deriva, de fuga, de
multiplicidades. Fazer filosofia é fazer encontros, misturas
com outros domínios, com as ciências, com as artes
e, sobretudo, com as vozes que vêm das ruas, dos becos,
de lugares que os pensadores do Estado nunca admitiram que pudesse
passar pensamento. Mas é exatamente o que uma certa filosofia,
que se origina em Nietzsche, nos ensinou. Não podemos
mais levar a imagem do filósofo de Estado. O filósofo
não pode ter uma postura de autoridade: aquele que detém
o saber e que por isso julga a vida. A vida não precisa
ser julgada, não precisa de nenhuma justificação.
O que precisamos é encontrar as multiplicidades, as matilhas
de que a vida é feita.
J. - O capitalismo promove uma certa loucura, uma certa alucinação.
Brilhos e luzes. Toda esta dinâmica no sentido de excitar
o homem. Qual a diferença entre a dinâmica que
o capitalismo faz para a que a pop-filosofia pode provocar?
L.I. - É muito difícil falar rapidamente destes
temas sem ser banal, vulgar. O capitalismo, sem dúvida,
produziu uma nova relação com o tempo, "amores
de 30 segundos no metrô", como diz um poeta novaiorquino
ou, lembrando Paul Virilio, podemos pensar o mundo moderno em
termos de velocidades: o elevador, o trem, o avião. Nossas
vidas são uma incessante mudança de velocidades.
Se há uma pop-filosofia, se a filosofia moderna pode
ser chamada de pop é enquanto é inseparável
das cidades onde se produz, destas cidades que as sociedades
ditas capitalistas inauguraram. Podemos pensar Espinoza e Amsterdã.
O pensamento de Espinoza é inseparável do intenso
escorrimento de fluxos que se dá em Amsterdã.
Sócrates e Atenas; Platão e Atenas; Nietzsche
e suas viagens pela Itália; Deleuze e sua prática
paradoxal que ele chama de intenso movimento nômade parado,
dizendo que sentado em uma cadeira podemos viajar para todos
os lugares. A filosofia se mistura com essas velocidades, esses
fluxos, que são as cidades e, a partir daí, produz
uma nova intensidade.
J. - A filosofia nesse caso não pensa o homem atrás
dela? Não dá as diretrizes do movimento do homem?
L.I. - Há muito, a filosofia teve que abandonar a postura
de vanguarda, de disciplina que diz aos homens e à vida
o que deve ser feito. Deleuze diz que a sua obra, a de Guattari,
a de Foucault devem muito ao movimento de maio de 68, em Paris.
Foi o desejo que rugiu então e mostrou não precisar
de vanguarda. O desejo sabe o que quer. Sabe fazer os enfrentamentos,
conhece os poderes que enfrenta. Maio de 68, diz Deleuze, deu-nos
lições sobre a insatisfação do desejo
com todas as relações em que estava inserido:
o tipo de universidade, de família, de justiça,
de ordem. Naquele momento tudo começou a vibrar muito
intensamente. Liberaram-se novos fluxos, novas populações,
novas matilhas. A filosofia se encontrou com tudo isso e surgiu
uma nova possibilidade de pensar, uma nova maneira de fazer
filosofia.
Salvador, outubro/93
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